Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
Começara a chover. Pelas algentes Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas, Encharcava os buracos das feridas, Alagava a medula dos Doentes!
Do fundo do meu trágico destino, Onde a Resignação os braços cruza, Saía, com o vexame de uma fusa, A mágoa gaguejada de um cretino.
Aquele ruído obscuro de gagueira Que à noite, em sonhos mórbidos, me acorda, Vinha da vibração bruta da corda Mais recôndita da alma brasileira!
Aturdia-me a tétrica miragem De que, naquele instante, no Amazonas, Fedia, entregue a vísceras glutonas, A carcaça esquecida de um selvagem.
A civilização entrou na taba Em que ele estava. O gênio de Colombo Manchou de opróbrios a alma do , Cuspiu na cova do !
E o índio, por fim, adstrito à étnica escória, Recebeu, tendo o horror no rosto impresso, Esse achincalhamento do progresso Que o anulava na crítica da História!
Como quem analisa uma apostema, De repente, acordando na desgraça, Viu toda a podridão de sua raça Na tumba de Iracema!...
Ah! Tudo, como um lúgubre ciclone, Exercia sobre ele ação funesta Desde o desbravamento da floresta À ultrajante invenção do telefone.
E sentia-se pior que um vagabundo Microcéfalo vil que a espécie encerra, Desterrado na sua própria terra, Diminuído na crônica do mundo!
A hereditariedade dessa pecha Seguiria seus filhos. Dora em diante Seu povo tombaria agonizante Na luta da espingarda contra a flecha!
Veio-lhe então como à fêmea vêm antojos, Uma desesperada ânsia improfícua De estrangular aquela gente iníqua Que progredia sobre os seus despojos!
Mas, diante a xantocróide raça loura, Jazem, caladas, todas as inúbias, E agora, sem difíceis nuanças dúbias, Com uma clarividência aterradora,
Em vez da prisca tribo e indiana tropa A gente deste século, espantada, Vê somente a caveira abandonada De uma raça esmagada pela Europa!
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