Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
Noite. Da Mágoa o espírito noctâmbulo Passou de certo por aqui chorando! Assim, em mágoa, eu também vou passando Sonâmbulo... sonâmbulo... sonâmbulo...
Que voz é esta que a gemer concentro No meu ouvido e que do meu ouvido Como um bemol e como um sustenido Rola impetuosa por meu peito adentro?!
— Por que é que este gemido me acompanha?! Mas dos meus olhos no sombrio palco Súbito surge como um catafalco Uma cidade ao mapa-múndi estranha.
A dispersão dos sonhos vagos reúno. Desta cidade pelas ruas erra A procissão dos Mártires da Terra Desde os Cristãos até Giordano Bruno!
Vejo diante de mim Santa Francisca Que com o cilício as tentações suplanta, E invejo o sofrimento desta Santa, Em cujo olhar o Vício não faísca!
Se eu pudesse ser puro! Se eu pudesse, Depois de embebedado deste vinho, Sair da vida puro como o arminho Que os cabelos dos velhos embranquece!
Por que cumpri o universal ditame?! Pois se eu sabia onde morava o Vício, Por que não evitei o precipício Estrangulando minha carne infame?!
Até que dia o intoxicado aroma Das paixões torpes sorverei contente? E os dias correrão eternamente?! E eu nunca sairei desta Sodoma?!
À proporção que a minha insônia aumenta Hieróglifos e esfinges interrogo... Mas, triunfalmente, nos céus altos, logo Toda a alvorada esplêndida se ostenta.
Vagueio pela Noite decaída... No espaço a luz de Aldebarã e de Árgus Vai projetando sobre os campos largos O derradeiro fósforo da Vida.
O Sol, equilibrando-se na esfera, Restitui-me a pureza da hematose E então uma interior metamorfose Nas minhas arcas cerebrais se opera.
O odor da margarida e da begônia Subitamente me penetra o olfato... Aqui, neste silêncio e neste mato, Respira com vontade a alma campônia!
Grita a satisfação na alma dos bichos. Incensa o ambiente o fumo dos cachimbos. As árvores, as flores, os corimbos, Recordam santos nos seus próprios nichos.
Com o olhar a verde periféria abarco. Estou alegre. Agora, por exemplo, Cercado destas árvores, contemplo As maravilhas reais do meu Pau d’Arco!
Cedo virá, porém, o funerário, Atro dragão da escura noite, hedionda, Em que o Tédio, batendo na alma, estronda Como um grande trovão extraordinário.
Outra vez serei pábulo do susto E terei outra vez de, em mágoa imerso, Sacrificar-me por amor do Verso No meu eterno leito de Procusto!
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