Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
Dormia embaixo, com a promíscua véstia No embotamento crasso dos sentidos, A comunhão dos homens reunidos Pela camaradagem da moléstia.
Feriam-me o nervo óptico e a retina Aponevroses e tendões de Aquiles, Restos repugnantíssimos de bílis, Vômitos impregnados de ptialina.
Da degenerescência étnica do Ária Se escapava, entre estrépitos e estouros, Reboando pelos séculos vindouros, O ruído de uma tosse hereditária.
Oh! desespero das pessoas tísicas, Adivinhando o frio que há nas lousas, Maior felicidade é a destas cousas Submetidas apenas às leis físicas!
Estas, por mais que os cardos grandes rocem Seus corpos brutos, dores não recebem; Estas dos bacalhaus o óleo não bebem, Estas não cospem sangue, estas não tossem!
Descender dos macacos catarríneos, Cair doente e passar a vida inteira Com a boca junto de uma escarradeira, Pintando o chão de coágulos sanguíneos!
Sentir, adstritos ao quimiotropismo Erótico, os micróbios assanhados Passearem, como inúmeros soldados, Nas cancerosidades do organismo!
Falar somente uma linguagem rouca, Um português cansado e incompreensível, Vomitar o pulmão na noite horrível Em que se deita sangue pela boca!
Expulsar, aos bocados, a existência Numa bacia autômata de barro, Alucinado, vendo em cada escarro O retrato da própria consciência!
Querer dizer a angústia de que é pábulo, E com a respiração já muito fraca Sentir como que a ponta de uma faca, Cortando as raízes do último vocábulo!
Não haver terapêutica que arranque Tanta opressão como se, com efeito, Lhe houvessem sacudido sobre o peito A máquina pneumática de Bianchi!
E o ar fugindo e a Morte a arca da tumba A erguer, como um cronômetro gigante Marcando a transição emocionante Do lar materno para a catacumba!
Mas vos não lamenteis, magras mulheres, Nos ardores danados da febre hética, Consagrando vossa última fonética A uma recitação de misereres.
Antes levardes ainda uma quimera Para a garganta onívora das lajes Do que morrerdes, hoje, urrando ultrajes Contra a dissolução que vos espera!
Porque a morte, resfriando-vos o rosto, Consoante a minha concepção vesânica, É a alfândega, onde toda a vida orgânica Há de pagar um dia o último imposto!
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