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1884–1914

III

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Pelo acidentadíssimo caminho Faísca o sol. Nédios, batendo a cauda, Urram os bois. O céu lembra uma lauda Do mais incorruptível pergaminho.

Uma atmosfera má de incômoda hulha Abafa o ambiente. O aziago ar morto a morte Fede. O ardente calor da areia forte Racha-me os pés como se fosse agulha.

Não sei que subterrânea e atra voz rouca, Por saibros e por cem côncavos vales, Como pela avenida das Mappales, Me arrasta à casa do finado !

Todas as tardes a esta casa venho. Aqui, outrora, sem conchego nobre, Viveu, sentiu e amou este homem pobre Que carregava canas para o engenho!

Nos outros tempos e nas outras eras, Quantas flores! Agora, em vez de flores, Os musgos, como exóticos pintores, Pintam caretas verdes nas taperas.

Na bruta dispersão de vítreos cacos, À dura luz do sol resplandecente, Trôpega e antiga, uma parede doente Mostra a cara medonha dos buracos.

O cupim negro broca o âmago fino Do teto. E traça trombas de elefantes Com as circunvoluções extravagantes Do seu complicadíssimo intestino.

O lodo obscuro trepa-se nas portas. Amontoadas em grossos feixes rijos, As lagartixas, dos esconderijos, Estão olhando aquelas coisas mortas!

Fico a pensar no Espírito disperso Que, unindo a pedra ao gneiss e a árvore à criança, Como um anel enorme de aliança, Une todas as coisas do Universo!

E assim pensando, com a cabeça em brasas Ante a fatalidade que me oprime, Julgo ver este Espírito sublime, Chamando-me do sol com as suas asas!

Gosto do sol ignívomo e iracundo Como o réptil gosta quando se molha E na atra escuridão dos ares, olha Melancolicamente para o mundo!

Essa alegria imaterializada, Que por vezes me absorve, é o óbolo obscuro, É o pedaço já podre de pão duro Que o miserável recebeu na estrada!

Não são os cinco mil milhões de francos Que a Alemanha pediu a Jules Favre... É o dinheiro coberto de azinhavre Que o escravo ganha, trabalhando aos brancos!

Seja este sol meu último consolo; E o espírito infeliz que em mim se encarna Se alegre ao sol, como quem raspa a sarna, Só, com a misericórdia de um tijolo!...

Tudo enfim a mesma órbita percorre E as bocas vão beber o mesmo leite... A lamparina quando falta o azeite Morre, da mesma forma que o homem morre.

Súbito, arrebentando a horrenda calma, Grito, e se grito é para que meu grito Seja a revelação deste Infinito Que eu trago encarcerado da minh’alma!

Sol brasileiro! queima-me os destroços! Quero assistir, aqui, sem pai que me ame, De pé, à luz da consciência infame, À carbonização dos próprios ossos!

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