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1884–1914

III

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

“Homem! por mais que a Ideia desintegres, Nessas perquisições que não têm pausa, Jamais, magro homem, saberás a causa De todos os fenômenos alegres!

Em vão, com a bronca enxada árdega, sondas A estéril terra, e a hialina lâmpada oca, Trazes, por perscrutar (oh! ciência louca!) O conteúdo das lágrimas hediondas.

Negro e sem fim é esse em que te mergulhas lugar do Cosmos, onde a dor infrene É feita como é feito o querosene Nos recôncavos úmidos das hulhas!

Porque, para que a Dor perscrutes, fora Mister que, não como és, em síntese, antes Fosses, a refletir teus semelhantes, A própria humanidade sofredora!

A universal complexidade é que Ela Compreende. E se, por vezes, se divide, Mesmo ainda assim, seu todo não reside No quociente isolado da parcela!

Ah! Como o ar imortal a Dor não finda! Das papilas nervosas que há nos tatos Veio e vai desde os tempos mais transatos Para outros tempos que hão de vir ainda!

Como o machucamento das insônias Te estraga, quando toda a estuada Ideia Dás ao sôfrego estudo da ninfeia E de outras plantas dicotiledôneas!

A diáfana água alvíssima e a hórrida áscua Que da ígnea flama bruta, estriada, espirra; A formação molecular da mirra, O cordeiro simbólico da Páscoa;

As rebeladas cóleras que rugem No homem civilizado, e a ele se prendem Como às pulseiras que os mascates vendem A aderência teimosa da ferrugem;

O orbe feraz que bastos tojos acres Produz; a rebelião, que na batalha, Deixa os homens deitados, sem mortalha, Na sangueira concreta dos massacres;

Os sanguinolentíssimos chicotes Da hemorragia; as nódoas mais espessas, O achatamento ignóbil das cabeças, Que ainda degrada os povos hotentotes;

O Amor e a Fome, a fera ultriz que o fojo Entra, à espera que a mansa vítima o entre, — Tudo que gera no materno ventre A causa fisiológica do nojo;

As pálpebras inchadas na vigília, As aves moças que perderam a asa, O fogão apagado de uma casa, Onde morreu o chefe da família;

O trem particular que um corpo arrasta Sinistramente pela via férrea, A cristalização da massa térrea, O tecido da roupa que se gasta;

A água arbitrária que hiulcos caules grossos Carrega e come; as negras formas feias Dos aracnídeos e das centopeias, O fogo-fátuo que ilumina os ossos;

As projeções flamívomas que ofuscam, Como uma pincelada rembrandtesca, A sensação que uma coalhada fresca Transmite às mãos nervosas dos que a buscam;

O antagonismo de Tífon e Osíris, O homem grande oprimindo o homem pequeno, A lua falsa de um parasseleno, A mentira meteórica do arco-íris;

Os terremotos que, abalando os solos, Lembram paióis de pólvora explodindo, A rotação dos fluidos produzindo A depressão geológica dos pólos;

O instinto de procriar, a ânsia legítima Da alma, afrontando ovante aziagos riscos, O juramento dos guerreiros priscos Metendo as mãos nas glândulas da vítima;

As diferenciações que o psicoplasma Humano sofre na mania mística, A pesada opressão característica Dos dez minutos de um acesso de asma;

E, (conquanto contra isto ódios regougues) A utilidade fúnebre da corda Que arrasta a rês, depois que a rês engorda, À morte desgraçada dos açougues...

Tudo isto que o terráqueo abismo encerra Forma a complicação desse barulho Travado entre o dragão do humano orgulho E as forças inorgânicas da terra!

Por descobrir tudo isso, embalde cansas! Ignoto é o gérmen dessa força ativa Que engendra, em cada célula passiva, A heterogeneidade das mudanças!

Poeta, feto malsão, criado com os sucos De um leite mau, carnívoro asqueroso, Gerado no atavismo monstruoso Da alma desordenada dos malucos;

Última das criaturas inferiores Governada por átomos mesquinhos, Teu pé mata a uberdade dos caminhos E esteriliza os ventres geradores!

O áspero mal que a tudo, em torno, trazes, Análogo é ao que, negro e a seu turno, Traz o ávido filóstomo noturno Ao sangue dos mamíferos vorazes!

Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes A perfeição dos seres existentes, Hás de mostrar a cárie dos teus dentes Na anatomia horrenda dos detalhes!

O Espaço — esta abstração spencereana Que abrange as relações de coexistência É só! Não tem nenhuma dependência Com as vértebras mortais da espécie humana!

As radiantes elipses que as estrelas Traçam, e ao espectador falsas se antolham São verdades de luz que os homens olham Sem poder, no entretanto, compreendê-las.

Em vão, com a mão corrupta, outro éter pedes, Que essa mão, de esqueléticas falanges, Dentro dessa água que com a vista abranges, Também prova o princípio de Arquimedes!

A fadiga feroz que te esbordoa Há de deixar-te essa medonha marca, Que, nos corpos inchados de anasarca, Deixam os dedos de qualquer pessoa!

Nem terás no trabalho que tiveste A misericordiosa toalha amiga, Que afaga os homens doentes de bexiga E enxuga, à noite, as pústulas da peste!

Quando chegar depois a hora tranquila, Tu serás arrastado, na carreira, Como um cepo inconsciente de madeira Na evolução orgânica da argila!

Um dia comparado com um milênio Seja, pois, o teu último Evangelho... É a evolução do novo para o velho E do homogêneo para o heterogêneo!

Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo A apodrecer!... És poeira e embalde vibras! O corvo que comer as tuas fibras Há de achar nelas um sabor amargo!”

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