Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
Noute! O silêncio vinha entrando pelo mundo E ele, lúgubre e só, trôpego e cambaleando Foi-se arrastando, foi aos poucos se arrastando, Para as bordas fatais dum precipício fundo!
Quis um momento ainda olhar para o Passado... E em tudo que o rodeava, oito vezes, funéreo, Horrorizado viu como num cemitério Cadáveres de um lado e cinzas de outro lado!
De súbito, avistando uma frondosa tília Julgou, louco, avistar a Árvore da Esperança... E bateram-lhe então de chofre na lembrança A casa que deixara, os filhos, a família!
Não morreria, pois! Somente morreria Se da Vida, sozinho, ele pisasse os trilhos... Que mal lhe haviam feito a esposa e a irmã e os filhos?! Preciso era viver! Portanto, viveria!
Viveria! E a fecunda e deleitosa seara Verde dos campos, onde arde e floresce a Crença, Compensaria toda a sua dor imensa Tal qual o Céu a dor de Cristo compensara!
E aos tropeços, tombando, o Velho caminhava... Caminhava, e a sonhar, bêbado de miragem, Nem viu que era chegado o termo da viagem, E amplo, a rugir-lhe aos pés, o precipício estava.
Num instante viu tudo, e compreendendo tudo, Quis fazer um esforço, — o último esforço, e o braço Pendeu exangue, o peito arqueou-se, o cansaço Empolgara-o, e ele quis falar e estava mudo!
Mudo! E a quem contaria agora as suas mágoas?! E trágico, no horror bruto da despedida Abraçou-se com a Dor, abraçou-se com a Vida E sepultou-se ali no coração das águas!
Cantavam muito ao longe uns carmes doloridos! Eram tropeiros, era a turba trovadora Que assim cantava, enquanto a Terra Vencedora Celebrava ao luar a Missa dos Vencidos!
E o cadáver, à toa, a flux d’água, flutua! Ninguém o vê, ninguém o acalenta, o acalenta... Somente, entre a negrura atra da terra poenta Alguém beija, alguém vela o cadáver: a Lua!
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