Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
O sol agora é de um fulgor compacto, E eu vou andando, cheio de chamusco, Com a flexibilidade de um molusco, Úmido, pegajoso e untuoso ao tacto!
Reúnam-se em rebelião ardente e acesa Todas as minhas forças emotivas E armem ciladas como cobras vivas Para despedaçar minha tristeza!
O sol de cima espiando a flora moça Arda, fustigue, queime, corte, morda!... Deleito a vista na verdura gorda Que nas hastes delgadas se balouça!
Avisto o vulto das sombrias granjas Perdidas no alto... Nos terrenos baixos, Das laranjeiras eu admiro os cachos E a ampla circunferência das laranjas.
Ladra furiosa a tribo dos podengos. Olhando para as pútridas charnecas Grita o exército avulso das marrecas Na úmida copa dos bambus verdoengos.
Um pássaro, alvo artífice da teia De um ninho, salta, no árdego trabalho, De árvore em árvore e de galho em galho, Com a rapidez duma semicolcheia.
Em grandes semicírculos aduncos, Entrançados, pelo ar, largando pêlos, Voam à semelhança de cabelos Os chicotes finíssimos dos juncos.
Os ventos vagabundos batem, bolem Nas árvores. O ar cheira. A terra cheira... E a alma dos vegetais rebenta inteira De todos os corpúsculos do pólen.
A câmara nupcial de cada ovário Se abre. No chão coleia a lagartixa. Por toda a parte a seiva bruta esguicha Num extravasamento involuntário.
Eu, depois de morrer, depois de tanta Tristeza, quero, em vez do nome — , Possuir aí o nome dum arbusto Qualquer ou de qualquer obscura planta!
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