Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos
Esta desilusão que me acabrunha É mais traidora do que o foi Pilatos!... Por causa disto, eu vivo pelos matos, Magro, roendo a substância córnea da unha.
Tenho estremecimentos indecisos E sinto, haurindo o tépido ar sereno, O mesmo assombro que sentiu Parfeno Quando arrancou os olhos de Dionisos!
Em giro e em redemoinho em mim caminham Ríspidas mágoas estranguladoras, Tais quais, nos fortes fulcros, as tesouras Brônzeas, também gira e redemoinham.
Os pães — filhos legítimos dos trigos — Nutrem a geração do Ódio e da Guerra... Os cachorros anônimos da terra São talvez os meus únicos amigos!
Ah! Por que desgraçada contingência À híspida aresta sáxea áspera e abrupta Da rocha brava, numa ininterrupta Adesão, não prendi minha existência?!
Por que Jeová, maior do que Laplace, Não fez cair o túmulo de Plínio Por sobre todo o meu raciocínio Para que eu nunca mais raciocinasse?!
Pois minha Mãe tão cheia assim daqueles Carinhos, com que guarda meus sapatos, Por que me deu consciência dos meus atos Para eu me arrepender de todos eles?!
Quisera antes, mordendo glabros talos, Nabucodonosor ser no Pau d’Arco, Beber a acre e estagnada água do charco, Dormir na manjedoura com os cavalos!
Mas a carne é que é humana! A alma é divina. Dorme num leito de feridas, goza O lodo, apalpa a úlcera cancerosa, Beija a peçonha, e não se contamina!
Ser homem! escapar de ser aborto! Sair de um ventre inchado que se anoja, Comprar vestidos pretos numa loja E andar de luto pelo pai que é morto!
E por trezentos e sessenta dias Trabalhar e comer! Martírios juntos! Alimentar-se dos irmãos defuntos, Chupar os ossos das alimarias!
Barulho de mandíbulas e abdomens! E vem-me com um despreza por tudo isto Uma vontade absurda de ser Cristo Para sacrificar-me pelos homens!
Soberano desejo! Soberana Ambição de construir para o homem uma Região, onde não cuspa língua alguma O óleo rançoso da saliva humana!
Uma região sem nódoas e sem lixos, Subtraída à hediondez de ínfimo casco, Onde a forca feroz coma o carrasco E o olho do estuprador se encha de bichos!
Outras constelações e outros espaços Em que, no agudo grau da última crise, O braço do ladrão se paralise E a mão da meretriz caia aos pedaços!
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