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1884–1914

BARCAROLA

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Cantam nautas, choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas.

Espelham-se os esplendores Do céu, em reflexos, nas Águas, fingindo cristais Das mais deslumbrantes cores.

Em fulvos filões doirados Cai a luz dos astros por Sobre o marítimo horror Como globos estrelados.

Lá onde as rochas se assentam Fulguram como outros sóis Os flamívomos faróis Que os navegantes orientam.

Vai uma onda, vem outra onda E nesse eterno vaivém Coitadas! não acham quem, Quem as esconda, as esconda...

Alegoria tristonha Do que pelo Mundo vai! Se um sonha e se ergue, outro cai; Se um cai, outro se ergue e sonha.

Mas desgraçado do pobre Que em meio da Vida cai! Esse não volta, esse vai Para o túmulo que o cobre.

Vagueia um poeta num barco. O Céu, de cima, a luzir Como um diamante de Ofir Imita a curva de um arco.

A Lua — globo de louça — Surgiu, em lúcido véu. Cantam! Os astros do Céu Ouçam e a Lua Cheia ouça!

Ouço do alto a Lua Cheia Que a sereia vai falar... Haja silêncio no mar Para se ouvir a sereia.

Que é que ela diz?! Será uma História de amor feliz? Não! O que a sereia diz Não é história nenhuma.

É como um requiem profundo De tristíssimos bemóis... Sua voz é igual à voz Das dores todas do mundo.

“Fecha-te nesse medonho “Reduto de Maldição, “Viajeiro da Extrema-Unção, “Sonhador do último sonho!

“Numa redoma ilusória “Cercou-te a glória falaz, “Mas nunca mais, nunca mais “Há de cercar-te essa glória!

“Nunca mais! Sê, porém, forte. “O poeta é como Jesus! “Abraça-te à tua Cruz “E morre, poeta da Morte!”

— E disse e porque isto disse O luar no Céu se apagou... Súbito o barco tombou Sem que o poeta o pressentisse!

Vista de luto o Universo E Deus se enlute no Céu! Mais um poeta que morreu, Mais um coveiro do Verso!

Cantam nautas, choram flautas Pelo mar e pelo mar Uma sereia a cantar Vela o Destino dos nautas!

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