Skip to content
1884–1914

ALTARES

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos

Quero que o povo ante esta deusa austera Ajoelhado lhe oscule o pó do rastro! E a espere ansioso, como quem espera A passagem magnífica de um astro!

Fugida das paragens luminosas Ainda a engrinalda, acesa, a última réstia... Calçam-lhe os pés dois cálices de rosas E o sol com o manto do seu oiro veste-a!

Alvo colar de pérolas pequenas Guarda no estojo de coral da boca, Seu passo é leve como o das camenas E a estrada em que anda de magnólias touca.

Envergonhado o rouxinol se cala Lhe ouvindo a voz: — que a sua voz de santa Povoa a terra de aves, quando fala, Povoa o céu de estrelas, quando canta!

Os olhos são-lhe quietos lagos onde Seu luminoso espírito se espelha E o coração, que a hóstia do amor esconde, Aurilavrado artóforo semelha!

A asa que ao sol, cortando águas serenas, Como um leque de prata, um cisne espalma, Tem nódoas e tem máculas nas penas, Comparada à brancura de su’alma!

Anima-a celestial, vivido sopro... Rondam-lhe beijos rútilos os flancos! Ah!... Certo foi um deus com um sacro escopro, Quem lhe esculpiu os belos braços brancos!

Quando ela surge em meio de secretas Harmonias e brilhos singulares, — Cantam todos os pássaros e poetas E iluminam-se todos os altares!

Cookies on Poetry Cove

We use cookies to remember your language preference and — only with your consent — to learn how Poetry Cove is used. You can change your mind any time.