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1823–1864

IV

Antônio Gonçalves Dias

Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci;

Guerreiros, descendo Da tribo tupi. Da tribo pujante, Que agora anda errante

Por fado inconstante, Guerreiros, nasci; Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte;

Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi. Já vi cruas brigas, De tribos imigas,

E as duras fadigas Da guerra provei; Nas ondas mendaces Senti pelas faces

Os silvos fugaces Dos ventos que amei. Andei longes terras Lidei cruas guerras,

Vaguei pelas serras Dos vis Aimorés; Vi lutas de bravos, Vi fortes — escravos!

De estranhos ignavos Calcados aos pés. E os campos talados, E os arcos quebrados,

E os piagas coitados Já sem maracás; E os meigos cantores, Servindo a senhores,

Que vinham traidores, Com mostras de paz. Aos golpes do imigo, Meu último amigo,

Sem lar, sem abrigo Caiu junto a mi! Com plácido rosto, Sereno e composto,

O acerbo desgosto Comigo sofri. Meu pai a meu lado Já cego e quebrado,

De penas ralado, Firmava-se em mi: Nós ambos, mesquinhos, Por ínvios caminhos,

Cobertos d’espinhos Chegamos aqui! O velho no entanto Sofrendo já tanto

De fome e quebranto, Só qu’ria morrer! Não mais me contenho, Nas matas me embrenho,

Das frechas que tenho Me quero valer. Então, forasteiro, Caí prisioneiro

De um troço guerreiro Com que me encontrei: O cru dessossêgo Do pai fraco e cego,

Enquanto não chego Qual seja, — dizei! Eu era o seu guia Na noite sombria,

A só alegria Que Deus lhe deixou: Em mim se apoiava, Em mim se firmava,

Em mim descansava, Que filho lhe sou. Ao velho coitado De penas ralado,

Já cego e quebrado, Que resta? — Morrer. Enquanto descreve O giro tão breve

Da vida que teve, Deixai-me viver! Não vil, não ignavo, Mas forte, mas bravo,

Serei vosso escravo: Aqui virei ter. Guerreiros, não coro Do pranto que choro:

Se a vida deploro, Também sei morrer.

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