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1823–1864

INTRODUÇÃO

Antônio Gonçalves Dias

Os ritos semibárbaros dos Piagas, Cultores de Tupã, a terra virgem Donde como dum trono, enfim se abriram Da cruz de Cristo os piedosos braços;

As festas, e batalhas mal sangradas Do povo Americano, agora extinto, Hei de cantar na lira. — Evoco a sombra Do selvagem guerreiro!... Torvo o aspecto,

Severo e quase mudo, a lentos passos, Caminha incerto, — o bipartido arco Nas mãos sustenta, e dos despidos ombros Pende-lhe a rôta aljava... as entornadas,

Agora inúteis setas, vão mostrando A marcha triste e os passos mal seguros De quem, na terra de seus pais, embalde Procura asilo, e foge o humano trato.

Quem poderá, guerreiro, nos seus cantos A voz dos piagas teus um só momento Repetir; essa voz que nas montanhas Valente retumbava, e dentro d’alma

Vos ia derramando arrojo e brios, Melhor que taças de cauim fortíssimo?! Outra vez a chapada e o bosque ouviram Dos filhos de Tupã a voz e os feitos

E as pocemas de morte, levantadas Dentro do circo, onde o fatal delito Expia o malfadado prisioneiro, Qu’enxerga a maça e sente a muçurana

Cingir-lhe os rins a enodoar-lhe o corpo: E sós de os escutar mais forte acento Haveriam de achar nos seus refolhos O monte e a selva e novamente os ecos.

Como os sons do boré, soa o meu canto Sagrado ao rudo povo americano: Quem quer que a natureza estima e preza E gosta ouvir as empoladas vagas

Bater gemendo as cavas penedias, E o negro bosque sussurrando ao longe — Escute-me. — Cantor modesto e humilde, A fronte não cingi de mirto e louro,

Antes de verde rama engrinaldei-a, D’agrestes flores enfeitando a lira; Não me assentei nos cimos do Parnaso, Nem vi correr a linfa da Castália.

Cantor das selvas, entre bravas matas Áspero tronco da palmeira escolho. Unido a ele soltarei meu canto, Em quanto o vento nos palmares zune,

Rugindo os longos encontrados leques. Nem só me escutareis fereza e mortes: As lágrimas do orvalho por ventura Da minha lira distendendo as cordas,

Hão de em parte ameigar e embrandece-las. Talvez o lenhador quando acomete O tranco d’alto cedro corpulento, Vem-lhe tingido o fio da segure

De puto mel, que abelhas fabricaram; Talvez tão bem nas folhas qu’engrinaldo, A acácia branca o seu candor derrame E a flor do sassafraz se estrele amiga.

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