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1823–1864

CANTO PRIMEIRO

Antônio Gonçalves Dias

Sentado em sítio escuso descansava Dos Timbiras o chefe em trono anoso, Itajuba, o valente, o destemido Acoçador das feras, o guerreiro

Fabricador das incansáveis lutas. Seu pai, chefe também, também Timbira, Chamava-se o Jaguar: dele era fama Que os musculosos membros repeliam

A flecha sibilante, e que o seu crânio Da maça aos tesos golpes não cedia. Cria-se... e em que não crê o povo stulto? Que um velho piaga na espelunca horrenda

Aquele encanto, inútil num cadáver, Tirara ao pai defunto, e ao filho vivo Inteiro o transmitira: é certo ao menos Que durante uma noite juntos foram

O moço e o velho e o pálido cadáver. Mas acertando um dia estar oculto Num denso tabocal, onde perdera Traços de fera, que rever cuidava,

Seta ligeira atravessou-lhe um braço. Mão d’imigo traidor a disparara, Ou fora algum dos seus, que receioso Do mal causado, emudeceu prudente.

Relata o caso, irrefletido, o chefe. Mal crido foi! — por abonar seu dito, Redobra d’imprudência, — mostra aos olhos A traiçoeira flecha, o braço e o sangue.

A fama voa, as tribos inimigas Adunam-se, amotinam-se os guerreiros E as bocas dizem: o Timbira é morto! Outras emendam: Mal ferido sangra!

Do nome do Itajuba se despega O medo, — um só desastre venha, e logo Esse encanto vai prestes converter-se Em riso e farsa das nações vizinhas!

Os manitós, que moram pendurados Nas tabas d’Itajuba, que as protejam: O terror do seu nome já não vale, Já defensão não é dos seus guerreiros!

Dos Gamelas um chefe destemido, Cioso d’alcançar renome e glória, Vencendo a fama, que os sertões enchia, Saiu primeiro a campo, armado e forte

Guedelha e ronco dos sertões imensos, Guerreiros mil e mil vinham trás ele, Cobrindo os montes e juncando as matas, Com pejado carcaz de ervadas setas

Tingidas d’urucu, segundo a usança Bárbara e fera, desgarrados gritos Davam no meio das canções de guerra. Chegou, e fez saber que era chegado

O rei das selvas a propor combate Dos Timbiras ao chefe. —— “A nós só caiba, (Disse ele) a honra e a glória; entre nós ambos Decida-se a questão do esforço e brios.

Estes, que vês, impávidos guerreiros São meus, que me obedecem; se me vences, São teus; se és o vencido, os teus me sigam: Aceita ou foge, que a vitória é minha.”

Não fugirei, responde-lhe Itajuba, Que os homens, meus iguais, encaram fito O sol brilhante, e os não deslumbra o raio. Serás, pois que me afrontas, torna o bárbaro

Do meu valor troféu, —— e da vitória, Qu’hei de certo alcançar, despojo opimo. Nas tabas em que habito ora as mulheres Tecem da sapucaia as longas cordas,

Que os pulsos teus hão de arrochar-te em breve; E tu vil, e tu preso, e tu coberto D’escárnio e d’irrisão! — Cheio de glória, Além dos Andes voará meu nome!

O filho de Jaguar sorriu-se a furto: Assim o pai sorri ao filho imberbe, Que, desprezado o arco seu pequeno, Talhado para aquelas mãos sem forças,

Tenta doutro maior curvar as pontas, Que vezes três o mede em toda altura! Travaram luta fera os dois guerreiros, Primeiro ambos de longe as setas vibram,

Amigos manitôs, que ambos protegem, Nos ares as desgarram, Do Gamela Entrou a fecha trêmula num tronco E só parou no cerne, a do Timbira,

Cicando veloz, fugiu mais longe, Roçando apenas os frondosos cimos Encontram-se os tacapes, lá se partem; Ambos o punho inútil rejeitando

Estreitam-se valentes: braço a braço, Alentando açodados, peito a peito, Revolvem fundo a terra aos pés, e ao longe Rouqueja o peito arfado um som confuso.

Cena vistosa! quadro aparatoso! Guerreiros velhos, à vitória afeitos, Tamanhos campeões vendo n’arena, E a luta horrível e o combate aceso,

Mudos quedaram de terror transidos. Qual daqueles heróis há de primeiro Sentir o egrégio esforço abandona-lo Perguntam; mas não há quem lhes responda.

São ambos fortes: o Timbira hardido, Esbelto como o tronco da palmeira, Flexível como a flecha bem talhada, Ostenta-se robusto o rei das selvas;

Seu corpo musculoso, imenso e forte É como rocha enorme, que desaba De serra altiva, e cai no vale inteira Não vale humana força desprende-la

Dali, onde ela está: fugaz corisco Bate-lhe a calva fronte sem parti-la. Separam-se os guerreiros um do outro, Foi dum o pensamento, — a ação foi d’ambos.

Ambos arquejam, descoberto o peito Arfa, estua, eleva-se, comprime-se E o ar em ondas sôfregos respiram Cada qual, mais pasmado que medroso

Se estranha a força que no outro encontra, A mal cuidada resistência o irrita. Itajuba! Itajuba! — os seus exclamam Guerreiro, tal como ele, se descora

Um só momento, é dar-se por vencido O filho de Jaguar voltou-se rápido Donde essa voz partiu? quem no aguilhoa? Raiva de tigre anuviou-lhe o rosto

E os olhos cor de sangue irados pulam “A tua vida a minha glória insulta! Grita ao rival, e já de mais viveste.” Disse, e como o condor, descendo a prumo

Dos astros, sobre o lhama descuidoso Pávido o prende nas torcidas garras, E sobe audaz onde não chega o raio... Voa Itajuba sobre o rei das selvas,

Cinge-o nos braços, contra si o aperta Com força incrível: o colosso verga, Inclina-se, desaba, cai de chofre, E o pó levanta e atroa forte os ecos.

Assim cai na floresta um tronco anoso, E o som da queda se propaga ao longe! O fero vencedor um pé alçando, Morre! — lhe brada — e o nome teu contigo!

O pé desceu, batendo a arca do peito Do exânime vencido: os olhos turvos, Levou, a extrema vez, o desditoso Àqueles céus d’azul, àquelas matas,

Doce cobertas de verdura e flores! Depois, erguendo o esquálido cadáver Sobre a cabeça, horrivelmente belo, Aos seus o mostra ensanguentado e torpe;

Então por vezes três o horrendo grito Do triunfo soltou; e os seus três vezes O mesmo grito em coro repetiram Aquela massa enfim côa nos ares;

Porem na destra do feliz guerreiro Dividem-se entre os dedos as melenas, De cujo crânio marejava o sangue! Transbordando ufania do sucesso

Inda recente, recordava as fases Orgulhos o guerreiro! Ainda escuta A dura voz, inda a figura avista Desse, que ousou atravessar-lhe as sanhas:

Lembra-se! e da lembrança grato enlevo Lhe côa n’alma em fogo: longos olhos Em quanto assim medita, vai levando Por onde o céu e as selvas se confundem,

Por onde o rio, em tortuosos giros, Queixoso lambe as empedradas margens. Assim o jugo seu não escorjassem Tredos Gamelas co’a noturna fuga!

Pérfidos! o herói jurou vingar-se! Tremei! qu’há de o valente debelar-vos! E em quanto segue o céu, e o rio, e as selvas, Crescem-lhe brios, força, —— alteia o colo,

Fita orgulhos a terra, onde não acha, Nem crê achar quem lhe resista; eis nisto Reconhece um dos seus, que pressuroso Corre a encontra-lo, — rápido caminha;

Porém d’instante a instante, d’enfiado Volta o pávido rosto, onde se pinta O susto vil, que denuncia o fraco. — Ó filho de Jaguar — de longe brada,

Neste aperto nos vale, — ei-los se avançam Pujantes contra nós, tão bastos, tantos, Como enredados troncos na floresta. Tu sempre tremes, Jurucei, tornou-lhe

Com voz tranquila e majestosa o chefe. O mel, que em falas sem cessar distilas, Tolhe-te o esforço e te enfraquece a vista: Amigos são talvez, amigas tribos,

Algum chefe, que tem conosco as armas, Em sinal d’aliança, espedaçado: Vem talvez festejar o meu triunfo, E os seus cantores celebrar meu nome.

“Não! não! ouvi o som triste e sonoro Sas igaras, rompendo a custo as águas Dos remos manejados a compasso, E os sons guerreiros do boré, e os cantos

Do combate; parece, d’irritado, Tão grande peso agora a flor lhe corta, Que o rio vai sorver as altas margens”. E são Gamelas? — perguntou-lhe o chefe.

“Vi-os, tornou-lhe Jurucei, são eles!” O chefe dos Timbiras dentro d’alma Sentiu ódio e vingança remorde-lo. Rugiu a tempestade, mas lá dentro,

Cá fora retumbou, mas quase extinta. Começa então com voz cavada e surda. Irás tu, Jurucei, por mim dizer-lhes: Itajuba, o valente, o rei da guerra,

Fabricador das incansáveis lutas, Em quanto a maça não sopesa em quanto Dormem-lhe as setas no carcaz imóveis, Of’rece-vos liança e paz; — não ama,

Tigre repleto, espedaçar mais presas, Nem quer dos vossos derramar mais sangue. Três grandes Tabas, onde heróis pululam, Tantos e mais que vós, tanto e mais bravos,

Caídas a seus pés, a voz lhe escutam. Vós outros, atendei, — cortai nas matas Troncos robustos e frondosas palmas, E construí cabanas, — onde o corpo

Caiu do rei das selvas, — onde o sangue Daquele herói, vossa perfídia atesta. Aquela briga enfim de dois, tamanhos, Sinalai; por que estranho caminheiro,

Amigas vendo e juntas nossas tabas, E a fé, que usais guardar, sabendo, exclamem: Vejo um povo de heróis e um grande chefe! Disse: e vingando o cimo d’alto monte,

Que em roda largo espaço dominava, O atroador membi soprou com força. O tronco, o arbusto, a moita, a rocha, a pedra, Convertem-se em guerreiros; — mais depressa,

Quando soa o clarim, núncio de guerra, Não sopra, e escava a terra, e o ar divide Co’as crinas flutuantes, o ginete, Impávido, orgulhoso, em campo aberto.

Da montanha Itajuba os vê sorrindo, Galgando vales, combros, serranias, Coalhando o ar e o céu de feios gritos. E folga, por que os vê correr tão prestes

Aos sons do cavo búzio conhecido, Já tantas vezes repetidos antes Por vales e por serras; já não pode Numera-los, de tantos que se apinham;

Mas vendo-os, reconhece o vulto e as armas Dos seus: “Tupã sorri-se lá dos astros, — Diz o chefe entre si, — lá, descuidosos Das folganças de Ibaque, heróis timbiras

Contemplam-me, das nuvens debruçados: E por ventura de lhes ser eu filho Enlevam-se, e repetem, não sem glória, Os seus cantores d’Itajuba o nome.

Vem primeiro Jucá de fero aspecto. Duma onça bicolor cai-lhe na fronte A pel’ vistosa; sob as hirtas cerdas, Como sorrindo, alvejam brancos dentes,

E nas vazias órbitas lampejam Dois olhos, fulvos, maus. — No bosque, um dia, A traiçoeira fera a cauda enrosca E mira nele o pulo; do tacape

Jucá desprende o golpe, e furta o corpo; Onde estavam seus pés, as duras garras Encravam-se enganadas, e onde as garras Morderam, beija a terra a fera exangue

E, morta, ao vencedor tributa um nome. Vem depois Jacaré, senhor dos rios, Ita-roca indomável, — Catucaba, Primeiro sempre no combate, — o forte

Juçurana, — Poti ligeiro e destro, O tardo Japeguá, — o sempre aflito Piaíba, que espíritos perseguem: Mojacá, Mopereba, irmãos nas armas,

Sempre unidos, ninguém não foi como eles! Lagos de sangue derramaram juntos; Filhos e pais e mães d’imigas tabas Odeiam-nos chorando, e a glória d’ambos,

Assim chorada, mais e mais se exalta: Samotim, Pirajá, e outros infindos, Heróis também, aos quais faltou somente Nação menor, menos guerreira tribo.

Japi, o atirador, quando escutava Os sons guerreiros do membi troante, Na tesa corda flecha embebe inteira, E mira um javali que os alvos dentes,

Navalhados, remove: pára, escuta... Volvem-lhe os mesmos sons: Bate-lhe o peito Os olhos pulam, — solta horrendo grito, Arranca e roça a fera!... a fera atônita,

Aterrada, transida, treme, erriça As duras cerdas; tiritante, pávida, Esgazeando os olhos fascinados, Recua: um tronco só lhe embarga os passos.

Por longo trato, de si mesma alheia, Demora-se, lembrada: a custo o sangue Volve de novo ao costumado giro, Em quando o vulto horrendo se recorda!

“Mas onde está Jatir? — pergunta o chefe, Que debalde o procura entre os que o cercam: Jatir, dos olhos negros, que me luzem, Melhor que o sol nascendo, dentro d’alma;

Jatir, que aos chefes todos anteponho, Cuja bravura e temerário arrojo Folgo em reger e moderar nos prélios; Esse, porque não vem, quando vos vindes?”

— Corre Jatir no bosque, diz um chefe Bem sabes como: acinte se desgarra Dos nossos, — andal só, talvez sem armas, Talvez bem longe: acordo nele é certo,

Creio, de nos tachar assim de fracos! — Pais de Jatir, Ogib, entrara em anos; Grosseiro cedro mal lhe afirma os passos, Os olhos pouco vêem; mas de conselho

Valioso e prestante. Ali, mil vezes, Havia com prudência temperado O juvenil ardor dos seus, que o ouviam. Alheio agora da prudência, escuta

A voz que o filho amado lhe crimina. Sopra-lhe o dizer acre a cinza quente, Viva, acesa, antes brasa, — o amor paterno: Amor inda tão forte na velhice,

Como no dia venturoso, quando Cendi, que os olhos seus só viram bela, Sorrindo luz de amor dos meigos olhos, Carinhosa lho deu; quando na rede

Ouvia com prazer as ledas vozes Dos companheiros seus, — e quando absorto, Olhos pregados no gentil menino, Bem longas horas, sim, porém bem doces

Levou cismando aventuradas sinas. Ali o tinha, ali meigo e risonho Aqueles tenros braços levantava; Aqueles olhos límpidos se abriam

À luz da vida: cândido sorriso, Como o sorrir da flor no romper d’alva, Radiava-lhe o rosto: quem julgara, Quem poderá aventar, supor ao menos

Haverem de apertar-se aqueles braços Tão mimosos, um dia, contra o peito Arquejante e cansado, — e aqueles olhos Verterem pranto amargo em soledade?

Incrível! — porém lágrimas cresceram-lhe Dos olhos, — lá tombou-lhe uma, das faces No filho, em cujo rosto um beijo a enxuga. Agora, Ogib, alheio da prudência,

Que ensina, imputações tão más ouvindo Contra o filho querido, acre responde. “São torpes os anuns que em bandos folgam, São maus os caitetus, que em varas pascem,

Somente o sabiá geme sozinho, E sozinho o Condor aos céus remonta. Folga Jatir de só viver consigo: Em bem, que tens agora que dizer-lhe?

Esmaga o seu tacape a quem vos prende, A quem vos dana, afoga entre os seus braços, E em quem vos acomete, emprega as setas. Fraco! não temes já que te não falte

O primeiro entre vós, Jatir, meu filho?” Despeitoso Itajuba, ouvindo um nome. Embora o de Jatir, apregoado Melhor, maior que o seu, a testa enruga

E diz severo aos dois qu’inda argumentam Mais respeito, mancebo, ao sábio velho, Qu’éramos nós crianças, manejava A seta e o arco em defensão dos nossos.

Tu, velho, mais prudência. Entre nós todos O primeiro sou eu: Jatir, teu filho, E forte e bravo; porém novo. Eu mesmo Gabo-lhe o porte e a gentileza; e aos feitos

Novéis aplaudo: bem maneja o arco, Vibra certeira a flecha; mas... (sorrindo Prossegue) afora dele inda há quem saiba Mover tão bem as armas, e nos braços

Robustos, afogar fortes guerreiros. Jatir virá, senão... serei convosco. (Disse voltado para os seus, que o cercam) E bem sabeis que vos não falto eu nunca.

Altercam eles nas ruidosas tabas, Em quanto Jurucei com pé ligeiro Caminha: as aves docemente atitam, De ramo em ramo — docemente o bosque

À medo rumoreja, — à medo o rio Escoa-se e murmura: um borborinho, Confuso se propaga, — um rio incerto Dilata-se do sol doirando o ocaso.

Último som que morre, último raio De luz, que treme incerta, quantos entes Oh! quantos! hão de ver a luz de novo E o romper d’alva, e os céus, e a natureza

Risonha e fresca, — e os sons, e os ledos cantos Ouvir das aves tímidas no bosque Outra vez ao surgir da nova aurora?!

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