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1857–1937

MARGENS DE OURO E ESMERALDA

Alberto de Oliveira

Esta água pouca e triste que ali passa E vai carpindo, o esfarrapado manto, Sujo do barro de esbeiçadas ribas, A rastos por pedrouços e atoleiros,

Foi há cem anos caudaloso rio. Da serra onde nascia, em tanta cópia Os cabedais rolava que, remada Pelos mais destros braços, nunca vira

Canoa alguma atravessar-lhe o curso; E não vadeado nunca, não sulcado Profanamento por afoitos remos, Levava ao mar as ondas, e com as ondas

Áureas folhetas, minerais preciosos, Como a buscar, fugindo aos que violavam Seus veeiros recônditos, longínquo Abrigo e paz na profundez do oceano.

Às margens dele, de uma e de outra banda, Pela primeira vez aí cultivados, Viçavam férteis, enleando a vista, À destra milheirais de espigas de ouro,

À sestra canaviais, brandindo ao vento Trêmulas espadanas de esmeralda. E o reflexo dourado de uma parte, Da outra parte o reflexo verde, ao longo

Serpenteavam das águas, que listadas Das duas cores, semelhavam solta Franzida fita ao sol tremeluzindo. Sobre a tarde, com a fresca, ou no silêncio

Dos luares do ermo, vulto leve e claro, Esbelto como uma palmeira nova, Vulto de mulher moça, muitas vezes, Olhos voados para além do rio,

Aos ais falava para a margem de ouro: — “Ouves-me acaso? saberás que te amo? Pudesses tu romper a nada as águas E apertar-me nos braços, que sou tua!

Falem por minha voz quantos suspiros Sôfrega espalho, nestes ares voam! Ó meu amor, eu te imagino de ouro Cabelos e olhos teus, como as espigas

De teus milheirais de ouro. Hás de ser belo Ardido e forte, para que algum dia Oponhas o teu peito à correnteza E alfim te eu possa receber nos braços!

Vem, eu te espero!” E para a de esmeralda, No mesmo tom, da oposta margem de ouro, Respondia a voz: — “Ouves-me acaso?

Pois sabe que te quero, e te amo, e adoro! Por tua causa fabriquei das árvores Apeando em terra os troncos mais robustos, Esguias, velocíssimas canoas;

Nenhuma pôde atravessar o rio, Tal a tensão elástica das águas. Peito, braços, então, lhe opus cem vezes, E cem vezes vencido me devolvo

Entrajado de espuma à flórea riba. Oh! eu te amo! nos sonhos me apareces Alva de lírios, com as madeixas verdes, Como, ao que ouvi contar, quando inda infante,

As sereias as têm no fundo oceano; Verdes, como à distância verdejando É de teus canaviais a visão verde. Serás minha algum dia, aguardo-o, e quando

A hora feliz chegar, irei colher-te, Mole açucena casta, que me esperas Nessa afastada margem de esmeralda!” Amavam-se, talvez, como se amavam

Pendões herbáceos, hásteas sussurrantes, Doces colmos de mel e áureas espigas; Mas entre os dois amantes, extremando-os, Sequer lhes permitindo, embora rápido,

Um aperto de mãos — como entre aquelas Duas lavouras, não lhes consentindo O breve gozo do enlaçar das folhas — Turgido, aos roncos, rescumava o rio.

— “Se crescêssemos nós — de si consigo Cochichavam as plantas — mas de modo Que as hásteas se encruzassem sobre o espelho Do rio, como braços que se apertam!”

— “Se este rio secasse — por seu turno Anelavam, cismando, os dois amantes — Se este rio secasse, mas de forma Que se lhe descobrisse enxuto o fundo

De abismadas areias, e em seu leito Nossos lábios uníssemos num beijo! Vinde, soprai o vento das queimadas, Secas de março! sol de março, esplende,

Corusca, exaure a vida a toda fonte, Mananciais que as vertentes suam, bebe!” Desejavam-se assim, assim na febre De insofridos desejos, imprecavam

Remédio ao mal de permeado estorvo; Mas alternadamente e como surdo À aspiração de corações e plantas, Agora limpo o céu, chuvoso agora

Se mostrava, ao calor de um dia ardente Noite orvalhosa sucedendo e amiga; Nem temporais que encharcam, nem soalheiras Que tudo crestam, senão só, constante,

Azul, sereno, temperado clima. E toda a tarde, um sopro de volúpia Morno e acariciador, aquelas vozes, A voz dele e a voz dela entremesclava

Num só desejo, — qual também nas margens De ouro e esmeralda, remexendo as moitas, Misturava num só rumor de amores Estalidos e frêmitos — secreto

Obscuro idioma que as folhagens falam. Vinham-se as noites — e era tudo um cântico, E mais alto e maior se aos voos no éter Nudez alva de lua aclara os ermos.

Estremecia pelas chãs palustres O ar cortado de trilos, de queixumes, De cioso rezumbir e estalos de asas; Luzia a mata com o bulir dos fogos

Pálidos da aluvião de de pirilampos; Deitada grama, arbusto, árvore, amavam-se, Amavam-se água e riba, e espuma e sombra, Vasa e limo, ervançais, recantos mudos,

Encruzilhadas, descampados mortos, Cinzentas serras, píncaros altíssimos, Tudo! que do alto céu, da láctea mancha Da via sideral baixava a tudo

— Obre de eterno amor — não sei que influxo De intenso gozo e de volúpia imensa. E fluía o tempo no açodado curso, Como o do rio, as horas afogando,

Dias e meses e ilusões de envolta, E sonhos, e suspiros, e ais e queixas, Tudo o que passa... menos a Esperança, — Náufraga eterna eternamente escapa

De sinistros, quaisquer que nesta vida Sejam as águas. Esperavam ambos. Eis que entre luas de um dezembro adusto,

Bramado de trovões e ventanias, Lá por desoras de chuvosa noite Soa um baque, retroa estrondo horrendo. Que foi? Veio a manhã, souberam todos.

Por sobre o rio, numa e noutra margem, A de ouro e a verde, a se apoiar estava Estendida uma ponte, qual tão bela Não lavoraram nem tão firme os homens.

Era inteiriço tronco centenário, Harto jequitibá daqueles sítios, Atalaia do rio, em cujo espelho Se revia e por sobre o qual trevosa

E vasta, no alto, abobadava a copa Esvoaçada de corvos e de nuvens, Que ruíra de rondão, mal suportando O rijo embate a acelerados ventos,

E carga secular. Intacto e válido. Deixaram-no a dormir seu grande sono; Intacto, que era o tronco áspero e grosso

Desses a quem, dentando-se ao feri-los, Nem foices lascam, nem machados toram. E por seu peito agora, à flor do rio, Vêm-se cruzar em trânsito contínuo

Os habitantes de uma e de outra margem. Sobre a tarde — cursando errante e cálido O mesmo sopro, a rebolir nas moitas, Pejava os corações de um vago anseio —

Pela primeira vez sobre a corrente, Na ponte feita do madeiro morto, Se apertam duas mãos, se unem dois lábios. Eram juntos, enfim, os dois amantes!

E pela vez primeira, em frente um do outro, Ele exclamou, vendo que os olhos dela — Glaucos abismos! eram verdes, verdes, Verdes do verde da florida margem

Dos verdes canaviais: — “Tens olhos verdes?” — “E os teus — disse ela — que são de ouro! de ouro!” Eram do ouro mais puro os olhos dele, Do ouro dos milheirais da margem de ouro.

E ouro e esmeralda, os olhos se fundiram De ambos num só olhar — risonhas núpcias De uma cor e outra cor, de uma alma e outra! Ouro e esmeralda — cores diferentes,

Mas que se querem, mas que se procuram, E folgam de se achar unidas, como Na laranjeira e nos seus doces frutos, No cacho da palmeira e nos seus leques

Na asa do beija-flor e da jandaia, No lampiro e na folha em que abre o facho, Na luz do sol e na floresta virgem.

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